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domingo, 25 de março de 2012

A prometida canção

Tinha prometido uma canção infantil ao género das melhores (e mais sádicas que por aí vão sendo feitas). Se alguém quiser musicá-la, avancemos...

Marcos Marquinho

"Marcos, Marcos, Marcos
Afinal quem és tu?
Aposto que não saltas
como o canguru

Salto, Salto, Salto
E vou bem alto
só que quanto caio
o meu pé parto

Partes, partes, partes
O teu pézinho
fazes sentir pena
és coitadinho

Coitad', coitad', coitad'
partiste a mão
quando saltaste
do teu colchão

Nada, nada, nada
Coitado não sou
saltei na lareira
e o outro pé queimou

Salta, salta, salta
ao pé coxinho
mesmo que não saltes
quando fores velhinho

Velho, Velho, Velho
Não sei se lá chego
Sempre que conduzo
Muito vinho bebo

Bebe, bebe, bebe
sempre a acelerar
se cantares bem alto
nunca vais parar

Copo, copo, copo
mais um copinho
encha-me este copo
do seu bom vinho

Chora, chora, chora
a mãe do Marquinho
bebia muito
mas era bom menino"

Então, é suficientemente horrível para ser gravada com voz de criança?

quinta-feira, 22 de março de 2012

A canção (infantil) não é uma arma, é um filme de terror

Leio hoje que uma educadora de um jardim de infância na Ericeira alterou a letra da canção "Atirei o Pau ao Gato" a seu bel prazer, incluindo na mesma a frase "viva o Benfica". Após o tradiconal "Vai-te embora pulga maldita" a senhora juntou "batata frita" e "viva o Benfica".
Um pai, adepto de outro clube que não o Benfica, sentiu que a alteração viola ou "o respeito pela diferença e pela individualidade, o fomento da pluralidade de gostos e o civismo" e apresentou queixa no Ministério da Educação. Segundo a notícia que li, que cita a agência Lusa, a educadora terá reagido dizendo, e cito, "quem está mal mude-se", aludindo ao facto de na classe de 13 crianças apenas duas não serem adeptas do Benfica.

Podendo a questão parecer patética, não o é. Tenho para mim, e em total acordo com a minha mulher, tomada a decisão de não influenciar o meu filho a ser do clube A ou do B, nem mesmo a gostar de futebol. Claro que não vou disfarçar os meus gostos, mas sendo eu de um clube e a minha mulher de outro, não faremos campanha para ele ser do A ou do B. E não é por acaso que a primeira camisola que ele recebeu, com o seu nome estampado nas costas, até é de outro a que podemos aqui chamar C.

A nossa ideia é que se ele gostar de futebol deva gostar por desporto. Mesmo torcendo por um clube, que seja capaz de apreciar o que de bom os outros fazem, o que de mau o seu fizer. Isto, insisto, se gostar de futebol.

Ora, é fácil de perceber, pois, que no lugar do pai da criança também eu não acharia qualquer graça à situação. Se eu não induzo o meu filho a ser de um clube, que direito terá a senhora educadora de fazê-lo por mim? Porque é engraçado? Para quem é engraçado? E se na turma existirem 11 crianças muçulmanas a professora deverá passar às outras os valores do islamismo? Parece-me fácil de perceber que não, que perante este exemplo a própria diria que não, e possivelmente até se recusaria a fazê-lo (até porque provavemente professará a religão católica).

Dizer a senhora, e volto a citar, "quem está mal mude-se" não é de todo incorrecto. O problema principal é que quem está mal não está a entendê-lo e não vai mudar-se. Assim, espero sinceramente que o Ministério da Educação a mude rapidamente, a bem da educação das crianças, de preferência para um local onde seja impedida de cantar.

E agora a parte em que falo do terror nas canções infantis

O problema das cantorias infantis, aliás, há bastante tempo que me apoquenta e me faz pensar. Na verdade, por vezes parece-me que as canções infantis em Portugal não foram escritas, ao contrário do que seria de supor, por avós babados e cheios de carinho. Ou melhor, podem até ter sido, mas além de babados e cheios de carinho estes avós tinham, seguramente, um sentido de humor retorcido e um riso maléfico. Talvez tenham os autores das canções infantis portuguesas sido os grandes inspiradores do admirável cineasta Tim Burton, tão afamado pela exploração de universos negros.

Se a canção "atirei o pau ao gato" mostra apenas um lado insensível e abrutalhado, que termina com a constatação de que (infelizmente, pode depreender-se) "o gato-to-to, não morreu-eu-eu", e passa ainda pela pulga maldita que chora e grita (ou batata frita/viva o Benfica, é escolher), outras há que apenas me fazem lembrar o velhote que viajando num autocarro suburbano vê uma criança com lindos caracóis e decidindo entabular conversa lhe diz: "ah, que grandes caracóis! amanhã trago uma tesoura e corto-te o cabelo"; ou a velhota que vê um menino a brincar com um pião e lhe diz algo do género "ah, que pião tão lindo, vou roubar-to".

Não sei se muita gente pensa sobre isto, se muitos consideram disparatado o tipo de humor com que supostamente "o português" tenta aproximar-se d'"a criança". Na verdade, basta-me colocar no DVD uma das compilações musicais do meu filho para perceber que desde pequeno se semeia o terror e o medo naquelas pobres almas, em vez de com elas se celebrar a alegria da vida.

Temos por exemplo a linda falua que vindo de Belém tem um barqueiro sádico, preparado para separar uma família. Ainda por cima uma família que vive com dificuldades. Note-se:

"Eu peço ao Senhor Barqueiro
que me deixe passar,
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar.

Passará, não passará,
algum deles ficará,
se não for a mãe à frente,
é o filho lá de trás."

Se não bastasse, há ainda o pobre João que fica sem o balão. Pior que ficar sem o balão é passar da alegria à tristeza:

"O balão do João
Sobe, sobe, pelo ar
Está feliz o petiz a cantarolar
Mas o vento a soprar,
Leva o balão pelo ar,
Fica então o João a choramingar."

Ainda na onda do sofrimento menor - por não ser grave - há o Manel, que nunca há de ser um Cristiano Ronaldo por causa de um maldoso cão. Esta canção, no entanto, sofre de outro problema. É sádica do princípio ao fim, e ainda apresenta como requinte supremo a frustração de não poder jogar à bola e tentar compensá-lo com uma canção para crianças.

"O Manel tinha uma bola,
que rolava pelo chão
na calçada ela rebola,
deu-lhe uma dentada um cão

[refrão]
Olha a bola Manel,
olha a bola Manel
foi-se embora, fugiu
olha a bola Manel,
olha a bola Manel
nunca mais ninguem a viu

O Manel tinha uma bola,
mas por falta de atenção
lá deixou ele ir a bola
entre os dentes de um cão

O Manel tinha uma bola
mas agora não tem não
e a gente a ver se o consola
vai cantar esta canção"

Outra particularidade do canconetismo infantil português é a necessidade urgente de rimar, mesmo que nada faça sentido, quando aplicado a crianças. Por exemplo, que o diga a desgraça Amélia, bebé que além de apesar de beber café vive com frio - mais um exemplo claro de terror psicológico:

"Lá estava a Amélia no corredor
Tão pequenina a tocar tambor.

Lá estava a Amélia na chaminé
Tão pequenina a tomar café.

Lá estava a Amélia no buraquinho
Tão pequenina a fazer caldinho.

Lá estava a Amélia no arvoredo
Tão pequenina cheia de medo.

Lá estava a Amélia no campo só
Tão pequenina metia dó.

Lá estava a Amélia à beira do rio
Tão pequenina cheia de frio."

Mais azar, no entanto, tem o desgraçado do Barnabé, talvez por ser pretito...

"O pretinho Barnabé, tiro-liro-liro,
O pretinho Barnabé, tiro-liro-lé.

A saltar quebrou um pé, tiro-liro-liro,
A saltar quebrou um pé, tiro-liro-lé.

Salta agora só num pé tiro-liro-liro,
Salta agora só num pé, tiro-liro-lé."


Num registo diferente, temos a história do casamento de um sapo. Que bom, não é? Sempre dá para desanuviar... Que bom, o sapito à beira rio! Vá, tem frio, é verdade, mas aparentemente nada de mau pode acontecer a um sapo que está à beira de um rio e que vai casar-se. Ora vejam lá:


Sapo, sapo, sapo
À beira do rio
Quando o Sapo canta
É porque tem frio
A Dona Sapinha
Deve estar lá dentro
A fazer rendinhas
Para o casamento
Ao passar a ponte
A ponte tremeu
Coitado do sapo

Jacaré comeu

Prometo, posto isto, que vou puxar pela imaginação e em breve sugerir a letra para uma canção infantil ao nível das mais conceituadas que aqui mostrei.